Martha Medeiros – Quero ser um BBB

Quero ser um BBB

Vou me inscrever para o próximo Big Brother no verão que vem. Antes vou malhar sete dias por semana, ficar loira e adulterar minha certidão de nascimento, e aí é cruzar os dedos para que me escolham.

Quase três meses confinada numa casa sem telefone, sem computador, sem televisão, sem jornal e cercada de descerebrados. É ou não é um spa?

Cerca de 90 dias sem vida real, só se preocupando com quem será o líder, quem será o anjo, qual será o tema da próxima festa, quem vai para o paredão, e só. No resto do tempo, é tratar de comer, nadar, dormir e filosofar – praticamente uma volta ao útero.

Em tempos outros, as mulheres sonhavam em ser BB*, a loira que magnetizou o cinema francês, Saint Tropez e Búzios. Agora tudo o que se quer é ser uma BBB, uma loira que magnetize a audiência falando bobagem. Mas eu, ao contrário, iria ficar bem quieta. Iria ser superamiga de todos. Iria lavar a louça diariamente. O máximo de profundidade que sairia da minha boca seria “oi, Bial”, dito com um sorriso de orelha a orelha. Eu iria pular feito um canguru quando minha família aparecesse reunida no telão com camisetas estampando minha foto. Eu sei, não adiantaria nada. Como não tenho QI para acompanhar aquele papo cabeça da rapaziada, iria ser eliminada na primeira semana, claro. Mas com o consolo de ir no programa do Faustão na semana seguinte. O Faustão seria tudo o que me restaria, já que meu telefone não tocaria com uma proposta da Playboy. A não ser que eu malhasse 11 dias por semana. Treze dias por semana. A não ser que nevasse em Juazeiro do Norte.

Sortudos esses confinados. Eles não fazem idéia de quem seja João Hélio, por exemplo. Quem é João Hélio? Pelo nome, eles achariam que é algum político nordestino. Um dirigente da Fifa. O personagem mau de uma novela do SBT, interpretado por algum canastrão. João Hélio. Desse soco no estômago eles se safaram. Quando o último integrante sair da casa, ninguém mais vai estar falando disso.

Ninguém vai lembrar de contar a eles. Ano que vem, quando fizer um ano da tragédia, vai sair uma notinha no jornal e os brothers, ao lerem (no caso de possuírem o hábito, me permita o otimismo), não sofrerão nenhum impacto, não perceberão a gravidade do que aconteceu, não reviverão o terror, já que o tempo suaviza tudo.

Nem precisa passar um ano. Mal completou um mês e o nosso choque nos levou aonde? O que mudou?

Eu mudei. Quero ser uma BBB. Nem que seja para não me sentir tão impotente e poder me defender dizendo: eu não sabia de nada.

Só que a gente sabe!

 

 

Martha Medeiros

 

In: Zero Hora – 14.3.2007

 

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