Fácil, a gente ter mãe…- J.G. de Araujo Jorge

Fácil, a gente ter mãe,

nem se percebe que tem,

mas só saber que ela existe,

que podemos encontrá-la

à hora que desejarmos,

que seus olhos sorrirão,

cheios de amor e bondade,

ao ver a nossa aflição;

que a seu lado – ela que é fraca-

nos sentiremos tão fortes

confiantes no futuro,

o coração tão seguro

e o mundo todo tão bom,

como se fosse verdade,

só isto vale ter mãe,

e é uma felicidade.

Fácil a gente ter mãe

– quase todo mundo tem –

mãe é uma coisa tão bela!

Pena é ver que há pela vida

os que só sabem que há mãe

porque ouviram falar nela,

só a conhecem de nome,

às vezes mesmo, nem isto.

Mãe é uma simples palavra

como uma nuvem ao vento,

um vazio pensamento.

Fácil a gente ter mãe,

nem se percebe que tem

no todo dia a seu lado

quando se tem a certeza

e se sabe onde ela está,

pra dividirmos com ela

uma alegria, um revés,

que basta só querer vê-la.

Assim é fácil ter mãe.

Difícil, sim, é perdê-la,

é ter que aceitar a idéia

de que no lugar de sempre

ela não se encontra mais.

Não adianta abrir a porta;

não passeia na varanda,

a cadeira está vazia,

na cama não tem ninguém.

E aquela voz que conforta,

que nos dava tanta paz,

que era um bem que não tem preço,

que era o nosso maior bem;

não ouviremos, calou-se,

é que ela agora mudou-se

pra um lugar sem endereço

onde Deus mora, no Além.

Ah, difícil é perdê-la,

nunca mais poder achá-la,

nos sentarmos a seu lado,

passearmos na varanda,

vê-la no quarto ou na sala,

que partiu, sem ter mais volta,

que pra nós nunca mais vem!

E indefesos e sozinhos,

termos que aceitar a sorte

por desolados caminhos,

inconformados com a morte,

todos perdidos também.

Fácil é a gente ter mãe,

mãe é assim como uma estrela,

estrela-guia que a gente

traz guardada dentro em si.

Difícil, sim, é perdê-la

como uma estrela cadente

que de repente se apaga…

E, oh, meu Deus, eu a perdi.

Brasília, Dia das Mães, 11 de maio de 1975

J.G. de Araujo Jorge

In: Tempo Será, 1986

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2 respostas em “Fácil, a gente ter mãe…- J.G. de Araujo Jorge

  1. Estão lindos todos os textos sobre as mães. Fico a pensar no texto do Rubem Braga, na reação do Joãozinho, quando já for papai, em contraste com o seu desabafo “Mamãe é uma chata”, naquela manhã de praia na sua infancia. Isto me leva a pensar na gloriosa vovó, mãe duas vezes, que se torna heroína, ao evitar a queda da sua linda netinha e relembra a Mulher Maravilha, dos desenhos animados da sua infância. Beijos, Simone

    • Risos…piadinha de vovó não pode…risos…
      Mas eu achei muito perfeita a crônica do Rubem Braga . Todas as mães se encontram naquele momento em que o pai diz : mas ele tem ” OITO ” anos….e a mãe responde : “oito ” anos , não ” OITO “…eu rolei de rir …
      Fico muito feliz que vc tenha gostado .
      E que todos os seus DiaS das Mães sejam ” maravilindos ” como você é .
      Beijos.

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