Pareço, logo existo – Martha Medeiros

 

Pareço, logo existo [Martha Medeiros]

 

Pior do que não ser aquilo que é de fato, são outros quererem que você seja algo que você não é, que não respeitam seu modo de ser, que falam o que querem, mas não estão preparados para ouvir o que não querem. É mais fácil criticar os outros do que olhar para si próprio e ver suas frustrações.

Quando as pessoas se preocuparem menos com o sucesso dos outros e buscar o seu próprio sucesso, seja pessoal ou profissional, serão mais felizes. Até porque temos o péssimo hábito de achar que pra uns vem mais fácil do que pra nós, no fim ninguém sabe o duro que só você deu para alcançar aquele sonho, o que você teve que renunciar. É uma escolha.

Em vez de invejar e culpar o “sistema” pela seu fracasso, levanta a poeira e dê a volta por cima. Em vez de se ocupar com o êxito dos outros, se ocupe consigo. Em vez de invejar o outro, se mexa. Mas não faça algo porque você quer mostrar que pode ser melhor ou está superior a outro, porque honestamente o outro nem vai notar que está querendo atingi-lo, estará mais ocupado em alcançar seu próximo objetivo e não terá tempo para se ocupar da frustração alheia.

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Foi-se o tempo em que a disputa se resumia ao clássico ser versus ter. Dizem que ninguém mais dá a mínima para o que é, só para o que tem. Exagero. As pessoas ainda se preocupam com o que são. O problema é que não gostam do que são. Gostariam de ser outra coisa. E aí entra o verbo que está no topo das paradas hoje em dia: parecer.

Tem gente que quer parecer rica, e adota um padrão de vida que não condiz com a sua realidade. Para manter a fachada de bem-nascida, acaba colecionando dívidas e queimando seu nome na praça. Nos eventos sociais, pode até ser a mais fotografada, mas, para os comerciantes, é bola preta na certa. A rica mais sem crédito das colunas.

Tem aqueles que querem parecer mais bem relacionados do que são, e se enturmam, forçam intimidade e grudam feito chiclete em pessoas que mal conhecem só para descolar um convite para uma festa, um show, uma estreia, qualquer lugar que projete.

Os que querem parecer mais cultos do que são, você sabe, são aqueles que nunca foram além do prólogo do livro e é o que basta para olharem a ralé de cima para baixo, como se fossem portadores da sabedoria universal.

Há os que querem parecer mais jovens do que são. Bom, quem não gostaria? E uma dádiva parecer ter cinco anos menos, sem esforço. A genética é mais generosa com uns do que com outros. Há muito tempo que eu não tento adivinhar a idade de ninguém: sempre erro, já que todo mundo parece ter bem menos. Mas se você tem 56 e parece ter 56, não é caso para enfiar a cabeça dentro do forno.

Os casos mais patéticos, no entanto, são os daquelas pessoas que querem parecer mais felizes do que são. O recurso adotado: mentem. O casamento delas está uma lua de mel, os filhos só dão alegrias, são muito requisitadas no trabalho, os amigos não param de telefonar, a vida tem sido um passeio num campo florido, e fica sem explicação aquele olhar melancólico, o sorriso forçado, a exaustão de ter que passar o falso entusiasmo adiante, como se não tivéssemos condições de perceber seu verdadeiro estado de ânimo, que é coisa que se transmite sem palavras. Ver alguém se esforçando para parecer feliz é das situações mais constrangedoras que se pode testemunhar.

Está triste? Esteja! Não é rico, nem jovem, nem belo? Nem por isso ficará sozinho. Pessoas não se apaixonam por estereótipos, mas pela singularidade de cada um, pela capacidade de ser surpreendido, pela sedução que o inusitado provoca. Uma pessoa que se preocupa em “parecer” já está derrotada no primeiro minuto de jogo. Dá valor demais à opinião dos outros, não age conforme a própria vontade, não se assume do jeito que é, inventa personagens para si mesmo e acaba se perdendo justamente desse “si mesmo”, que fica órfão. Quer parecer mais inteligente? Comece admitindo que não sabe nada sobre nada e toque aqui: ninguém sabe.

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2 respostas em “Pareço, logo existo – Martha Medeiros

  1. “Foi-se o tempo em que a disputa se resumia ao clássico ser versus ter. Dizem que ninguém mais dá a mínima para o que é, só para o que tem. Exagero. As pessoas ainda se preocupam com o que são. O problema é que não gostam do que são. Gostariam de ser outra coisa. E aí entra o verbo que está no topo das paradas hoje em dia: parecer.”

    Creio que a diferença hoje está na troca dos substantivos pelos adjetivos. Calma, explico. Essencialmente o homem continua sendo o mesmo, mesquinho. Portanto, não se diz mais ” eu quero ter dinheiro”, e sim “eu quero ser rico”. Enfim, nós, seres em evolução, não demos um passo adiante.

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