O amor é xepa – Luis Pellanda

Parabéns , Luís ! Seu ” O amor é xepa ”  é ” maravilindo ” ….risos…vc arrasou , emocionou , identificou …como dizemos por aqui : vc tá demais ! Risos…

Adélia Prado me ajudou a entender que existem palavras de luxo. A alusão está lá, num poema curto chamado “Ensinamento”, publicado nos anos 70. São dez versos ou nem isso, as lembranças de uma menina católica nascida em Divinópolis, em 1935, quatro décadas antes de lançar seu primeiro livro. Sua mãe, Ana Clotilde, lhe dizia da importância de estudar, dos serões do marido ferroviário, do trabalho pesado e das fomes que a vida despertava nos homens. Por isso, corria arranjar para o seu um pouco de pão e algum café, e à noite o esperava com um tacho de água no fogo. Só se esqueceu de chamar a filha a um canto e, com ela, um dia, falar de amor — “essa palavra de luxo”.

Compreendo a poeta, presa a uma lacuna verbal tão vasta. Eu próprio fui criado numa casa católica onde não se falava de amor. Também dispensávamos extravagâncias modernas, como o rádio-relógio ou o videocassete, e não bebíamos refrigerante sem que nos dessem uma razão especial para tanto. Decerto eram luxos aparentados — a tecnologia, a emoção, o açúcar —, embora hoje eu já me sinta à vontade para arriscar uma ou outra analogia patética a respeito: sempre se tomou mais Coca-Cola do que se falou de sentimentos, e isso em praticamente qualquer lar deste planeta.

É que o amor, claro, não vinha em garrafas retornáveis. Era algo a ser poupado seriamente, e esbanjá-lo em conversas domésticas podia ser perigoso. Vai que, de repente, um vento encanado o carregava pela janela da cozinha? Ah, o amor, levado numa corrente de ar frio, preso entre os galhos mais altos da ameixeira do vizinho — como recuperá-lo, com que voz pedi-lo de volta?

Exageros à parte, essa contenção de palavras amorosas talvez fosse outra coisa, não economia, mas recato. Tínhamos vergonha de falar de amor entre quatro paredes, assim como quem teme sair à rua com um chapéu emplumado, um boá de penas, o cadáver de um arminho nas costas. Afinal, ninguém toma café da manhã de fraque. Ninguém calça um par de Louboutins e vai esfregar chão de banheiro. Ninguém lava a louça da janta com o solitário da Cartier no dedo enrugado. E quem aí vai ao sacolão e enche sua Louis Vuitton de mimosas?

Agora, você sabe, a história é outra. Perdemos o decoro, falamos de amor até nas redes sociais. Abrimos as torneiras e o deixamos escorrer por um cano de ouro furado. Bonito é derramar-se. Encharcamos de afeto nossos parentes, amigos e animais de estimação, sem pudor algum. E está melhor assim, não é? Pois que o amor seja vendido barato. Que seja emprestado, dado de presente, largado no sebo, perdido no jogo de canastra. Que dance para nós por dois reais. Que seja liquidado em feiras de quinta categoria, até virar xepa e, finalmente, lixo.

Morte, portanto, às palavras de luxo. E um salve à letra vulgar, à menina Adélia, ao alfabeto da simplicidade. Pois de que adianta sobrevoar o mundo em seu helicóptero, se você não souber ler a poesia aqui embaixo?

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