Vanzolini foi o poeta das pequenas tragédias que nos cercam

29/04/2013 – 10h22

FABIO VICTOR

EDITOR-ADJUNTO DA “ILUSTRADA”

Vanzolini foi o poeta das pequenas tragédias que nos cercam

 

Paulo Vanzolini se apresenta no ‘El Grande Conserto’ no Teatro Oficina

 

Ao gravar “Praça Clóvis”, nesse disco lendário que é “Onze Sambas e uma Capoeira“, Chico Buarque percebeu, e ajudou a iluminar, já em 1967, a genialidade de Paulo Vanzolini.

 

 

 

A crônica do sujeito que guarda renitente na carteira o 3 x 4 da mulher que o abandonou, mas, ao ter a carteira batida por um “lanceiro” numa praça no coração de São Paulo, vê-se aliviado –porque “já devia ter rasgado e não podia” aquele retratinho– é uma das joias de uma obra subestimada, que as clássicas “Ronda” e “Volta por Cima” ajudaram a ofuscar.

 

 

Vanzolini nos mostrou que, essencial à existência (ou indissociável dela), a amargura pode ser companheira e que as tragédias miúdas estão por todo lado.

A vida, nos soprou ele, é uma tragédia, mas não convém superestimá-las (nem a vida nem as tragédias).

 

Talvez daí a concisão, letras elegantes que davam o recado em poucas linhas.

 

No seu painel urbano, que vai muito além da fossa, surgem mortes bestas, por ciúme, como a de “Cravo Branco”; há espaço para “loosers” e desalentados (“Bandeira de Guerra”, que narra o romance entre “uma mulher em hora perdida” e “um homem em ponto morto”, é o hino dos amores tortos deste mundo) e para tormentos mais densos, soturnos até.

 

Ou “Morte É Paz” (“Vida comprida e vazia/ dias e noites iguais/ Morte é paz”) não é bem mais dark que qualquer balada de cortar os pulsos do Joy Division?

Amantes na sarjeta, mas orgulhosos (“Com a muita raça que tem/ leva essa farsa até o fim/ mas traz escrita na testa a falta de mim”, canta a figura traída de “Falta de mim”), machistas que fariam amenos alguns versos chauvinistas de Vinicius (“Ainda que fosse brava porém competente/ Se atrás da bronca viesse/ a roupa limpa, o café quente/ Ou se fosse ignorante no claro/ e ardente no escuro/ Eu lhe asseguro/ Não faria falta a paz”, canta o sujeito de “Mulher que não dá Samba”) –o desfile é extenso, o olhar é de quem viveu a vida.

 

Vanzola fazia essas coisas assombrosas nos intervalos da atividade de grande cientista.

 

Parecia um homem simples, que amava coisas que contam –as mulheres, os amigos, a ciência, a noite, a boêmia.

 

Numa das vezes que o encontrei, na pré-estreia do documentário “Um Homem de Moral” no então Espaço Unibanco, em 2009, convidaram o diretor (Ricardo Dias) e uma acadêmica para um debate sobre a obra de Vanzolini em seguida à exibição do filme.

 

Ele parecia deslocado, desconfortável com a solenidade e o escrutínio acadêmico. Pediu na hora uma cerveja, e alguém correu à coxia para buscar uma lata –só então pareceu mais aliviado.

 

Em todas as últimas ocasiões que o avistei, já debilitado, tomava seu copo, a cerveja como uma breve vacina à náusea do mundo.

 

A leveza com que tratou o peso dos dias certamente permitiria que cantasse na despedida um dos seus melhores sambas: “Quando eu for, eu vou sem pena/ Pena vai ter quem ficar”.

 

É fato. Mas, para o que ficamos, resta bem mais do que pena.

 

Esta que passou foi uma madrugada fria e triste, a nos lembrar que a vida é comprida e vazia, dias e noites iguais.

 

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