In Articulo Mortis – Fernando Pessoa

 

 

Que nos importa que a lua morta tenha ou não tenha traços

Do antigo mundo que viveu rindo?

Que seja cinza o que era calor ao calor dos nossos abraços?

De nada nos serve…Fechemos os olhos, cruzemos os braços.

E desesperemos, sorrindo.

 

A vida é pouco e a dor é muito. Ao luar e à noite esquecemos

O nosso ser de sob o sol;

E já que a corrente nos leva silente, abandonemos os remos;

E visto o falar a a

ção nos lembrar, calemo-nos, escutemos:

Talvez cante o rouxinol.

 

E daí quem sabe na noite o que cabe? Da solidão infinda

Talvez raie um sol e um dia,

E à barca que erra…talvez uma terra lhe espere obscura a vinda.

Talvez não seja o rouxinol que cante…Esperemos ainda,

E talvez seja a cotovia.

 

Fernando Pessoa

 

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2 respostas em “In Articulo Mortis – Fernando Pessoa

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