Caio Fernando Abreu

 

 

Ninguém saberá da secura de nossos olhos

da dureza de nossa boca ninguém saberá

do fio das unhas da dor no dente

do sangue guardado no fundo da gaveta

 

ninguém adivinhará os jardins atrás do muro fechado

ninguém quebrará o ferro do portão

ninguém violentará o secreto

ninguém te tocará profundamente

ninguém te saberá

ninguém.

 

Por isso olhamos as nuvens

sentados ao vento que não sopra

enquanto os balanços rangem

os rádios cantam

e a rua intocável como um quadro

pintado por outro.

 

Por isso olhamos em volta

e o que se passa além de nossa (uma palavra ileg.))

não nos soluciona

(ninguém sabe

ninguém saberá).

 

O caule quebrado do girassol

o livro de Toynbee sobre os degraus

a caneta riscando o papel

as nuvens

a tarde

a rua

 

o medo.

 

20 de dezembro de 1975.

 

Caio Fernando de Abreu

In Poemas Nunca Publicados por Caio Fernando Abreu

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