Fábrica do Poema – Waly Salomão

 

(In memoriam Donna Lina Bo Bardi)

 

sonho o poema de arquitetura ideal

cuja própria nata de cimento encaixa palavra por

palavra,

tornei-me perito em extrair faíscas das britas

e leite das pedras.

acordo.

e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.

acordo.

o prédio, pedra e cal, esvoaça

como um leve papel solto à mercê do vento

e evola-se, cinza de um corpo esvaído

de qualquer sentido.

acordo,

e o poema-miragem se desfaz

desconstruído como se nunca houvera sido.

acordo!

os olhos chumbados

pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,

assim é que saio dos sucessivos sonos:

vão-se os anéis de fumo de ópio

e ficam-se os dedos estarrecidos.

 

sinédoques, catacreses,

metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros

sumidos no sorvedouro.

não deve adiantar grande coisa

permanecer à espreita no topo fantasma

da torre de vigia.

nem a simulação de se afundar no sono.

nem dormir deveras.

pois a questão-chave é:

sob que máscara retornará o recalcado?

 

(mas eu figuro meu vulto

caminhando até a escrivaninha

e abrindo o caderno de rascunho

onde já se encontra escrito

que a palavra “recalcado” é uma expressão

por demais definida, de sintomatologia cerrada:

assim numa operação de supressão mágica

vou rasurá-la daqui do poema.)

 

pois a questão-chave é:

sob que máscara retornará?

 

(de “O mel do melhor”, Rocco, 2001)

 

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