Micheliny Verunschk

Micheliny Verunschk

*

O violino

Entregue a sutil carícia

da curva do queixo

mal finge

que freme mesmo

é ao balé febril

das pontas dos dedos.

(Talhado em nobre madeira,

o filho de Eros,

é dado ao gozo animal

ao humano sexo…)

(Micheliny Verunschk)

(Poema do livro: Geografia íntima do deserto. São Paulo: Landy, 2003. p. 28)

*

Darkness

A solidão,

essa tempestade,

esse gozo às avessas,

esse jeito de eternidade

que as coisas adquirem mesmo sendo apenas vidro.

Essas cartas ardendo

no estômago das gavetas,

essas plumas

que surgem quando se apagam

as últimas luzes do dia.

Tudo faz a noite mais longa,

Visão de uma sombra

Sobre um berço.

Não há resposta

e o labirinto é o falso,

os lábios são falsos,

somente abismo,

absinto verdadeiro.

O sono,

grande placa de cerâmica,

e o tempo,

demônio a ranger sobre o infinito.

(Micheliny Verunschk – referência bibliográfica abaixo)

*

Da rotina

Varrer o dia de ontem

que ainda resta pela sala,

o dia que persiste,

quase invisível

pelo chão,

nos objetos

sobre os móveis da sala.

Varrer amanhã

o pó de hoje.

Varrer,

varrer hoje.

(E domingo quebrar nos dentes

o copo

e sua água de vidro.

Segunda, não esquecer:

varrer todos os vestígios.)

(Micheliny Verunschk – referência bibliográfica abaixo)

*

O que dizem os girassóis sobre a morte

Eles vestiram

suas roupas sujas

e saíram de casa.

E suas mãos

se desmanchando

em linhas de sangue

borraram a lã dos cordeiros

e as amendoeiras.

Nossas tias lamentavam a lua,

o tapete que teciam,

a voz de esmeralda

da menina caída no poço.

Eles não sabiam,

mas estávamos lá.

Bebemos em silêncio

o sêmen ainda quente do morto.

(Micheliny Verunschk – referência bibliográfica abaixo)

*

3 Poemas do livro “Geografia íntima do deserto” – 1° edição. Editora Landy. 2003:

“Darkness”, pagina 55

“Da rotina”, página 70

“O que dizem os girassóis sobre a morte”, página 59

Micheliny Verunschk nasceu no Recife, Pernambuco em 1972.

Seus dois livros de estréia foram lançados em 2003 : “O observador e o nada” e ” Geografia íntima do deserto” , sendo que esse último lhe rendeu o posto de finalista no Prêmio Portugal Telecom 2004 (única mulher e também a mais jovem a ser indicada). Ela também é historiadora pós-graduada em Literatura. Atualmente a autora mantém o blog Apachamamma. Outros textos da autora podem ser encontrados no Ovelha Pop

(Contribuição com digitação e conferência dos textos de Joice Silva para A Magia da Poesia.)

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