O Tempo – Mário Quintana

O Tempo

O despertador é um objeto abjeto.

Nele mora o Tempo. O Tempo não pode viver sem

nós, para não parar.

E todas as manhãs nos chama freneticamente como

um velho paralítico a tocar a campanhinha atroz.

Nós

é que vamos empurrando, dia a dia, sua cadeira de

rodas.

Nós, os seus escravos.

Só os poetas

os amantes

os bêbados

podem fugir

por instantes

ao Velho…Mas que raiva dá no Velho quando

encontra crianças a brincar de roda

e não há outro jeito senão desviar delas a sua

cadeira de rodas!

Porque elas, simplesmente, o ignoram…

Mario Quintana

(1906-1994)

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