Zona Hermética – Manoel de Barros

De repente, intrometem-se uns nacos de sonhos;
Uma remembrança de mil novecentos e onze;
Um rosto de moça cuspido no capim de borco;
Um cheiro de magnólias secas.O poeta
Procura compor esse inconsútil jorro;
Arrumá-lo num poema; e o faz.E ao cabo
Reluz com a sua obra.Que aconteceu? Isto:
O homem não se desvendou, nem foi atingido:
Na zona onde repousa em limos
Aquele rosto cuspido e aquele
Seco perfume de magnólias,
Fez-se um silêncio branco…E aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado.Não será marcado.Nunca  será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.
Manoel de Barros
In Poesia Completa
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